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Gatilho

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Fui uma criança emotiva. Fui uma adolescente sensível. E trouxe tudo isso comigo para a idade adulta. Reagia por impulso, amuava, chorava… Na altura, não via isso como um problema. Só anos mais tarde percebi que, para quem estava de fora, estas reações podiam ser interpretadas como um sinal de imaturidade. Aprendi a controlar-me. Mas esse controlo trouxe também o reverso da medalha. Autocontrolo. Controlo excessivo. Um controlo ainda mais vincado pela POC que me acompanha. A minha terapeuta diz-me que preciso de aprender a ser mais vulnerável. Mas será que, quando tento sê-lo, não acabo por fazer tudo da forma errada? Meu Deus… como tudo isto pesa. Há dias em que sinto que não me importaria de rasgar a pele, só para que tudo isto deixasse de doer. P.S. Imagem retirada da net, pode ter direitos de autor

Primeiro Post do Ano

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 Fiz uma pausa no trabalho, pausa que me é devida, mas que eu insisto em não usufruir. Poderei alegar imensos motivos, mas sei que prefiro embrenhar-me na única coisa que pareço dominar – o trabalho – enquanto vou colocando checked na minha lista de tarefas. Entre faturas, e-mails e atualizações de processos, questiono-me se não deveria ir ao ginásio, acabar de ouvir o podcast sobre o Livro de Jó ou voltar a listar, no caderno, os nomes de animais em russo para não me esquecer. A par disso, as compulsões assumem-se. Apetece-me gritar ou sentir as unhas compridas a escarafuncharem na pele, ou as duas coisas. Estou qualquer coisa que não sei definir. E todas estas ideias vêm ao mesmo tempo. Entretanto, volto a duas lembranças do passado que surgem desde que me dei conta de que a “vergonha” é algo que me acompanha há muito tempo. Tinha eu 3 ou 4 anos, quando me perdi na praia da Nazaré. Queria ir à água e, com aquela idade, ainda não sabia que era suposto pedir autorização ou esper...

Novembro 👉 Dezembro

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Novembro foi de silêncio... Recolhi-me por obrigação, necessidade e fuga. Se não viesse hoje aqui para me relembrar de palavras idas, talvez o silêncio se prolongasse por mais algum tempo na blogosfera. Este blog tem 10 anos e em 10 anos muita coisa mudou na minha vida. Mas há uma génese, uma base, algo inato que parece permanecer. E talvez seja contra esse interior imutável dento de mim, que eu insisto em lutar. Devo dizer que, nesta questão, pouco ou nada mudei nestes 10 anos. Quando me vejo ao espelho, ainda sinto o desagrado, confidenciei ontem à minha terapeuta. Eu não quero ser assim, não quero pensar assim, nem sentir como sinto, mas parece que ainda não consegui mudar esta minha tendência. Não gosto de sentir da forma que sinto e não gosto de pensar da forma como penso e depois não gosto de saber que não gosto de sentir como sinto e penso como penso. Confuso? Welcome to my mind! Sempre senti dificuldades em delimitar quem eu sou sem doença e em quem eu me torno com a doença. On...

Da vergonha

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Tenho POC. Não tenho vergonha de ter POC, mas sim daquilo em que o POC me torna. Na semana passada voltei às minhas caminhadas, e soube-me bem. Voltei a sentir uma alegria que às vezes me acompanha quando me aventuro por Lisboa, mas que nem sempre consigo encontrar — principalmente nos últimos tempos. Mas o pensamento lá esteve. É uma vozinha maliciosa que me segreda aos ouvidos mil e uma tragédias hipotéticas. Só há uma forma de acabar com os cenários imaginários — de forma provisória, claro, porque passada uma hora eles voltam. A compulsão surge aí, nesse momento. Pareço uma drogada, presa a um vício mental. E aí sinto vergonha. A minha psicóloga deu-me um exercício para fazer. Falhei, como já sabia que iria acontecer. Ridículo aos olhos de qualquer pessoa minimamente normal, mas também aos meus próprios olhos — ainda que eu pouco tenha de normal. O desafio dela obrigou-me a estar muito consciente de quando as obsessões chegam. Quero calar a voz, mas ela não cala. Quero acabar ...

Lisboa

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Tem sido difícil pensar, sentir e até respirar. Mas ontem, por instantes, enquanto sentia o sol e mais uma vez me maravilhava com a beleza desta cidade, senti-me bem.

Das Travessias

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Estou a tentar melhorar. Estou a tentar ter maior consciência dos meus processos internos, dos meus traumas, das minhas dores. Mas nada é imediato e eu ainda anseio que tudo se processe quase que por milagre e de forma imediata. A minha mente tenta resistir a certos padrões. Apercebo-me disto. Mas há um espaço ainda grande que medeia a consciência e a mudança do hábito. E a verdade é que isto me deixa esgotada. O problema e a cura. As obsessões e as compulsões cansam-me. Tentar lutar contra elas, cansa-me. O trabalho tem vindo a tornar-se num problema, quando durante muito tempo não o foi. E agora é um problema a juntar a outros. O que não funciona, não funciona. O que parecia funcionar, parece não funcionar mais, e sinto um peso enorme nas minhas costas. Os momentos de ansiedade são frequentes, intercalados por breves instantes de alguma calmaria. Talvez esteja a complicar o simples, a dramatizar em demasia, a aumentar problemas menores. Mas esta é a minha perspetiva do que me ro...

Tenho P.O.C. [2]

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Tenho P.O.C. Perturbação Obsessiva-Compulsiva. Ou a P.O.C. tem-me. Os profissionais de saúde costumam dizer que nós não somos as nossas doenças mentais. Às vezes custa-me acreditar nisto. Sou assim deste há muitos anos. Os primeiros sintomas surgiram ainda na adolescência. Claro que na altura eu não sabia que tinha uma doença. Pensava apenas que era uma pessoa estranha. Pensava que tinha uma particularidade única e, de tão absurda que era, não conjeturava que pudesse haver mais alguém neste mundo que fosse como eu. Roberto Carlos, cantor brasileiro, é portador desta doença. Acho que lhe devo agradecer por ter descoberto que aquilo que eu fazia de “estranho” afinal era consequência de uma perturbação que afetava a minha mente. Em 2009, descobri o conceito e identifiquei-me com algumas das características. Há vários tipos de P.O.C. e subtipos. Nem todos os doentes têm as mesmas obsessões e nem todos os doentes desenvolvem as mesmas compulsões. Mas hoje entendo que há mais pessoas com...

Pausas

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Passou cerca de um mês da última publicação. Fiz anos entretanto. Fui de férias. Tive de mudar a bateria do meu carro novo. Iniciei as consultas com a nova psicóloga. Regressei aos treinos. Fui à missa no último Domingo. Não necessariamente por esta ordem. A par disto, tenho sido acompanhada por uma enorme ansiedade. Tenho dificuldade em dormir uma noite inteira e não consigo relaxar. Como a minha irmã concretizou tão bem, eu estou constantemente em modo de alerta.  Quero voltar aos momentos em que me sentia em paz e mentalmente teletransporto-me para as caminhadas junto ao Parque da Bela Vista. Lembro-me especificamente desta caminhada, de mochila às costas e a sentir-me nada cansada por estar a caminhar em dia de calor. Atualmente, até caminhar me cansa. Não tenho a mesma resistência que tinha há dois anos. Não sei se isto se deve a um cansaço físico ou é apenas consequência dos meus estados mental e emocional. Na maioria das vezes, busco refugir-me na minha casa e evitar grandes...

Tenho P.O.C.

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Sou Cristã e tenho P.O.C. Tenho P.O.C. há mais tempo do que me lembro de ser Cristã. Deus é libertação. Tudo aquilo que o P.O.C. não é. Por norma consigo ter 4 ou 5 anos de relativa estabilidade até que sucede um período de crise. A doença ganha forma e a minha mente enfraquece. Tento fingir qualquer coisa para o mundo inteiro como se o mundo inteiro reparasse ou estivesse minimamente preocupado. Desde há uns anos, percebi que foi a minha doença que me levou a afastar das pessoas e não querer/conseguir criar grandes relações. Sempre achei que, qualquer pessoa que privasse comigo por mais de 24 horas, iria perceber que há qualquer coisa de muito errada comigo.  Aprendi a inventar desculpas. "Não posso!". "Não consigo nesse dia!" Ou a correr para as casas de banho entre eventos para poder realizar os meus rituais. A minha mente não para. Ela não para! Diariamente me alerta para perigos que julga ela serem eminentes. Todos os dias ela me diz que tenho de me preparar pa...

Parar

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Passados 10 anos ainda regresso aqui, a este espaço na blogoesfera que acaba por ser bastante solitário. Não espero contradições, nem que comentem que estou errada ou me equivoquei. Não há likes , não há reações boas nem más. É um espaço neutro. Gosto. E regresso aqui porque é o espaço seguro que consegui criar nos últimos dez anos. As últimas semanas têm sido emocionalmente exigentes e por isso preciso tanto do meu espaço seguro. No escritório não acendo as luzes e as cortinas estão para baixo. Podia abrir a boca e falar. Ou podia vir para aqui escrever impropérios. A propósito de impropérios lembrei-me, ainda hoje, de que há uns anos, num espaço similar, chorava baba e ranho e amuava com facilidade. Não quero voltar a ser essa pessoa! É por isso que este espaço aqui é tão bom. Liberto emoções neste lugar de interlocutores mudos. Não é preciso muito mais. Só quero parar. Saber parar, sem peso na consciência e contemplar o vazio e o silêncio.

Vivendo com POC e ansiedade - 2

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Fui ao médico. Pela primeira vez posso afirmar que estou a ser devidamente acompanhada. Já marquei consulta de psicologia para o início de Novembro. Quero "curar" a minha mente. Não sei se curar é a palavra certa, até porque duvido muito que seja possível curar comportamentos e pensamentos que já estão tão enraizados. Confesso que a farmacologia ainda não me trouxe grandes melhorias. Em relação à minha toma habitual, foi aumentada a dosagem de 50mg para 100 mg. Li na bula que o máximo diário aconselhável é de 200mg. Não sei bem o que é que estava à espera que acontecesse. Alguma melhora, quicá! Mas sinto-me pior. Sinto que os meus sintomas pioraram. A minha mente não pára. Há momentos em que me sinto tão cansada que tomo um calmante não porque me sinta ansiosa mas para ver se o fluxo mental abranda. Estes sintomas são-me familiares. Há cerca de 12/13 anos passei por algo semelhante, um ano depois de ter sido consultada pela Ana Rita e de ter aprendido, em 6 meses, a controlar...

Abraço-te minha pequenina.

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Abraço-te minha pequenina. Conheço tão bem a tua dor, o teu medo, a tua ansiedade e a tua tristeza. O quanto tentaste resolver circunstâncias que não eram da tua responsabilidade. Sabes, também eu agora sinto dor, medo, ansiedade e tristeza. Mas coloco-te protegida no meu coração, para que seja a mulher adulta que sou a tentar resolver os problemas. Sabes pequenina, pedi ajuda para te curar, para me curar, para nos curar. Fi-lo por ti e por mim. Abraço-te minha pequenina. Coragem, para nós as duas!

Vivendo com POC e ansiedade - 1

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Creio que nunca escrevi sobre este tema. Não é confortável para mim. Poucas pessoas sabem e pouquíssimas das poucas que sabem, entenderão realmente o que eu vivo e como vivo. Os comportamentos ditos "estranhos" começaram quando eu ainda era uma adolescente. A memória mais antiga que tenho leva-me para o 6.º ano de escolaridade pelo que, na altura, teria cerca de 11/12 anos.   O diagnóstico de "Perturbação Obsessiva-Compulsiva" viria muito mais tarde. Nessa altura eu achava apenas que era uma pessoa estranha, única na estranheza, com comportamentos estranhos. Ninguém poderia entender. A minha perturbação sempre esteve associada muito ao medo de perder as pessoas de quem gosto. Nunca consegui encaixar o conceito de morte e quando o ouvi, anos antes, a tristeza foi acompanhada de uma profunda incompreensão. Este medo foi-se fortalecendo. Os meus rituais eram disfarçados, escondidos, salvo raros momentos em que era observada por colegas minhas que esboçavam um sorri...