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Viagem

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Fecho os olhos. Acedo ao meu íntimo, vasculho nas profundezas do meu ser. Pego num pequenino barco a remos com uma lanterna pendurada na extremidade e sigo pelo rio das veias. Ao longe chegam-me vozes como ecos de palavras ditas por mim há anos e que agora regressam aos meus ouvidos. Há lodo encrostado nas paredes, mas também tímidos fachos de luz a quererem irromper como rebentos. O coração bate como um tambor a marcar o ritmo da viagem. Oiço-o a bater dentro de mim. Oiço-o a bater fora de mim. Forte, confiante. Grita-me do centro do peito: "- É para sentir tudo, sem medos!" Obedeço-me e sinto… tudo.

Nenhures

A noite vai chegar mas os passos não cessam. É caminhar até à exaustão. Chegará o momento de regressar, mas não será hoje. Não será hoje. O pôr do sol é para ser visto. O frio da tarde a entranhar nos ossos é para ser sentido. As ruas desertas são para serem encontradas. É no espaço onde pouco se vê e quase ninguém se encontra que eu me sinto viva. Escolho a minha loucura porque há momentos em que a sanidade mata mais depressa.

Gritos

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Gritos surdos que bombeiam por dentro, queimam, ardem na pele escondida, provocam feridas para serem escarafunchadas pelos dedos num ato sórdido de masoquismo. A boca não solta palavras, as palavras são sim agressivamente extraídas pelos dedos que recebem a pulsão. Há excessos de fúria como se resultado de uma embriaguez que, no entanto, é desprovida de álcool. Quando mensalmente o monstro é acordado no peito de uma mulher, exige-se que ele seja vivido. E ela vive-o. Vive o monstro, torna-se no monstro, é o monstro. E dança incontrolavelmente, histericamente, excessivamente até que o corpo ceda e caia no chão. Caído no chão ela ri como uma louca, demente, sem tino, sem siso, sem discernimento. Rende-se ao que é quando ninguém [a] vê, quando ninguém [a] ouve, quando ninguém imagina os segredos que traz escondidos no coração. Crava as unhas na própria pele, arranca os cabelos e o grito ganha voz. Por fim, uiva como uma loba selvagem.

Sou assim

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Insisto e desisto. E desisto mas volto a insistir. Sou assim. Uma crente com certa dose de descrente e que na descrença volta a acreditar. E acredita só para voltar a duvidar. Mas sou assim. Não conseguiria ser de outra forma.

Somos loucos

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....Quando o ser certinho é castração, porque não somos melhores, mas menos honestos. Substituímos o ser pelo parecer e no intermédio esquecemo-nos de quem somos na verdade. E quem somos nós de verdade? Somos loucos.