Da vergonha
Tenho POC. Não tenho vergonha de ter POC, mas sim daquilo em que o POC me torna.
Na semana passada voltei às minhas caminhadas, e soube-me bem. Voltei a sentir uma alegria que às vezes me acompanha quando me aventuro por Lisboa, mas que nem sempre consigo encontrar — principalmente nos últimos tempos.
Mas o pensamento lá esteve. É uma vozinha maliciosa que me segreda aos ouvidos mil e uma tragédias hipotéticas. Só há uma forma de acabar com os cenários imaginários — de forma provisória, claro, porque passada uma hora eles voltam.
A compulsão surge aí, nesse momento. Pareço uma drogada, presa a um vício mental. E aí sinto vergonha.
A minha psicóloga deu-me um exercício para fazer. Falhei, como já sabia que iria acontecer. Ridículo aos olhos de qualquer pessoa minimamente normal, mas também aos meus próprios olhos — ainda que eu pouco tenha de normal.
O desafio dela obrigou-me a estar muito consciente de quando as obsessões chegam.
Quero calar a voz, mas ela não cala.
Quero acabar com o medo, mas ele não cessa. A ansiedade surge, vai subindo... A dada altura, torna-se presente demais para poder ignorá-la. Recorro, por fim, à compulsão.
É como pensar que estou a afogar-me no oceano (quando, na realidade, não há água), e a compulsão é a prancha a que me agarro para não me afogar. Mas, repito, na maioria das vezes não há água. Apenas existe o medo de que ela hipoteticamente possa lá estar e, caso se torne real, eu me possa afogar.
Com a realização da compulsão, o ritmo cardíaco desce, sossega e, em princípio, durante os próximos 30 ou 40 minutos poderei ter algum sossego. Até que tudo volta, como as ondas imaginárias daquele oceano imaginário...
Tenho depois o que chamo de tempos mornos... Aqueles momentos em que a minha mente abdica um pouco do controlo porque conseguiu convencer-se a si mesma de que o risco é menor.
Se pensar bem, tudo é passível de acontecer a qualquer altura, mas há momentos em que a minha mente assume que o risco é elevado e outros em que considera que o risco é menor. Consoante a sua perceção do risco, ela estará mais ou menos alerta e, consequentemente, a compulsão é maior nos primeiros casos e menor nos segundos. Mas esta perceção é apenas isso mesmo — uma perceção. O grau de risco não é propriamente verdadeiro, mas sim dependente da forma como eu perspetivo a ameaça.
Exemplo. O risco de perigo é maior na rua do que em casa. Para além de que a casa tem um espaço definido e limitado, enquanto que a "rua", o espaço exterior é amplo e mais difícil de ser controlado.
Algo que também faz despoletar a compulsão é a solidão. Há situações em que a necessidade de contacto não surge do medo mas da necessidade de ser ouvida e de poder falar. Às vezes sinto-me extremamente sozinha e preciso de sentir que há alguém que nota que eu existo.
A ironia disto tudo: quando estou mais acompanhada e me sinto melhor com as pessoas, as obsessões e as compulsões diminuem; mas, ao mesmo tempo, fujo das pessoas porque tenho vergonha de que descubram quem eu sou realmente. E sim, podem dizer, que uma pessoa não é o POC, mas ela de certa forma também não o deixa de ser...
E é este o meu monstro-papão.
P.S. Imagem tirada da net, pode ter direitos de autor.

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