Primeiro Post do Ano

 Fiz uma pausa no trabalho, pausa que me é devida, mas que eu insisto em não usufruir. Poderei alegar imensos motivos, mas sei que prefiro embrenhar-me na única coisa que pareço dominar – o trabalho – enquanto vou colocando checked na minha lista de tarefas.

Entre faturas, e-mails e atualizações de processos, questiono-me se não deveria ir ao ginásio, acabar de ouvir o podcast sobre o Livro de Jó ou voltar a listar, no caderno, os nomes de animais em russo para não me esquecer. A par disso, as compulsões assumem-se. Apetece-me gritar ou sentir as unhas compridas a escarafuncharem na pele, ou as duas coisas.

Estou qualquer coisa que não sei definir. E todas estas ideias vêm ao mesmo tempo.

Entretanto, volto a duas lembranças do passado que surgem desde que me dei conta de que a “vergonha” é algo que me acompanha há muito tempo.
Tinha eu 3 ou 4 anos, quando me perdi na praia da Nazaré. Queria ir à água e, com aquela idade, ainda não sabia que era suposto pedir autorização ou esperar que um adulto me acompanhasse. Cheguei à berma e molhei os pés. Tudo aquilo era imenso. Imensa água à minha frente e imensa terra atrás de mim com imensa gente desconhecida. Quando quis regressar, dei-me conta de que não sabia de onde tinha partido. Sabia que havia uma rocha algures, mas, naquele momento, esse algures podia ser qualquer lugar. Uma vozinha dentro de mim mandou-me sentar e esperar. Sei que estava assustada, mas também envergonhada. Sim, uma menina de 3 ou 4 anos estava envergonhada por se ter perdido!
Anos mais tarde, já morava eu em Lisboa, ia sendo atropelada na zona de Benfica, perto da casa onde morava. Por sorte, foi só o susto e a roupa molhada quando perdi o balanço e caí na passadeira. O primeiro pensamento? “Lá estás tu a fazer figuras tristes!”

Há algo em mim que me embaraça a mim mesma. Talvez por isso, sempre que algo externo me provoca inveja ou ciúmes, há um desejo de me castigar como se o que estivesse fora só pudesse ser consequência de uma pobreza interna. E a minha mente pode ser cruel. Muito.

Enquanto isso, no passar dos dias fui tendo sonhos estranhos: ameaçava matar-me, ou revisitava uma casa cheia de bonecas em forma de bruxa, ou alguém do meu passado se sentava à mesma mesa que eu.

Gostava de, por um instante, conseguir sair da minha mente e poder ser apenas uma pessoa normal.





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