Tenho P.O.C. [2]

Tenho P.O.C. Perturbação Obsessiva-Compulsiva. Ou a P.O.C. tem-me.

Os profissionais de saúde costumam dizer que nós não somos as nossas doenças mentais. Às vezes custa-me acreditar nisto. Sou assim deste há muitos anos. Os primeiros sintomas surgiram ainda na adolescência. Claro que na altura eu não sabia que tinha uma doença. Pensava apenas que era uma pessoa estranha. Pensava que tinha uma particularidade única e, de tão absurda que era, não conjeturava que pudesse haver mais alguém neste mundo que fosse como eu.
Roberto Carlos, cantor brasileiro, é portador desta doença. Acho que lhe devo agradecer por ter descoberto que aquilo que eu fazia de “estranho” afinal era consequência de uma perturbação que afetava a minha mente.

Em 2009, descobri o conceito e identifiquei-me com algumas das características. Há vários tipos de P.O.C. e subtipos. Nem todos os doentes têm as mesmas obsessões e nem todos os doentes desenvolvem as mesmas compulsões. Mas hoje entendo que há mais pessoas como eu e, quanto às minhas obsessões e compulsões em específico, não são verdadeiramente originais.
Foi ainda em 2009 que marquei consulta com uma psicóloga. Disse-lhe: “acho que tenho algo que se chama P.O.C. Se não for isto, ajude-me a perceber o que tenho, porque há algo de muito errado comigo!”

Receber o diagnóstico é o primeiro passo que antecede uma série de outros que, em muitos casos, acompanharão os pacientes pela vida fora.

Fiz terapia durante 6 meses e ao fim daquele tempo sentia-me pronta para enfrentar o mundo. É assim tão simples? Não, não é. No meu caso eu consegui, naquela altura, por algum motivo que ainda desconheço, convencer a minha mente de que era eu que mandava nela, e não o contrário, e consegui contrariar todos os seus caprichos até que, a dada altura, ela acabou por ceder.
Mas a recuperação foi ténue e dois anos depois, devido a um problema de saúde da minha irmã que me deixou muito ansiosa, os sintomas voltaram.
A P.O.C. tem a ver com o controlo e sempre que a pessoa sinta que está à perdê-lo, a P.O.C. irá segredar ao ouvido: “vamos tomar as rédeas outra vez?”

Racionalmente, eu sei que não controlamos nada na vida. Eu sei! Mas na prática, há sempre uma necessidade em antecipar possíveis situações para evitar eventuais tragédias que a mente insistentemente nos relembra que podem vir a acontecer agora, daqui a uma hora, à hora de almoço, à tarde. E depois de terem passado esses segmentos de tempo, logo pensamos que afinal pode ser só à noite e por isso vamos repetido comportamentos, compulsões.

Toda a gente pode a dada altura, com maior ou menor intensidade, experimentar sensações de medo, de receio. Mas o normal é não alimentar essas ideias. O cerebrozinho de alguém com P.O.C. faz o contrário. Deixa a porta escancarada para todas estas imagens e antecipa os piores cenários e reforça estes pensamentos.

Há um fluxo de ideias que não conseguimos parar. Vêm de enxurrada. “Se calhar, vai acontecer isto. Se calhar, vai acontecer aquilo.” E aquilo que imaginamos é catastrófico. Não ficamos a pensar: “Há se calhar é hoje mesmo que vou ganhar o Euro Milhões.”

[Há momentos em que eu abano a cabeça sucessivamente a ver se os pensamentos desaparecem. Claro que não funciona assim. Não dá para abrir o cérebro tirar o que não presta e colocar no lixo, nem tombar a cabeça na esperança de que essas ideias obsessivas caiam pelos ouvidos.]

O cansaço mental é enorme e afeta o sono, os rendimentos escolar e profissional, os relacionamentos interpessoais, para além de levar a outras consequências como ansiedade e a tudo o que a ansiedade pode acarretar.

Neste momento, posso dizer que estou extremamente cansada. Arrasto-me para o trabalho porque não posso não trabalhar. Mas não me obrigo a muito mais do que isto, porque não consigo. Não posso.

Os poucos momentos em que vou conseguindo os pausas é a noite, quando consigo dormir. Nem sempre, porque a minha gata mais pequenina tem estado doentinha e isto contribuiu, entre outras coisas, para o aumentar da minha ansiedade.

Não sei o que preciso, nem o que me faria bem neste momento.

É difícil não conseguir confiar no que faço no meu trabalho, porque desconfio do meu cérebro. Não sei se estou a ler as coisas bem ou não, se estou a interpretá-las bem ou não. Se envio um e-mail, não sei se o escrevi bem ou não. E não me refiro a erros ortográficos, mas ao conteúdo do mesmo, às ideias. Se fui muito educada, ou pouco. Firme ou demasiado condescendente. Confirmo e reconfirmo endereços de e-mail antes de enviar. Imagino cenários de coisas que possam acontecer decorrentes de uma ação minha específica. E levo tudo como se fosse uma responsabilidade minha, uma obrigação. Não sei se desliguei o telefone ou não. Se fechei a porta ou não. E nem posso pensar na minha casa, ou logo vem a ansiedade por tudo o que eu não tenho a certeza se fiz ou não.

Às vezes apetece-me não ser eu. Se a essência de quem somos reside em alguma parte do nosso cérebro, então eu não quero ser eu. Não quero ser este fúsil queimado, ou esta má ligação entre as conexões cerebrais.

Sim, os profissionais de saúde costumam dizer que nós não somos as nossas doenças mentais, mas eu não consigo ver-me para além disto. Não consigo ver-me como alguém que não está sempre preocupada com alguma coisa, que não está constantemente a ligar de hora em hora para verificar que está tudo bem, que não confirma n vezes se deixou a porta de casa fechada. Nem posso ignorar a quantidade de vezes que me afasto das pessoas só para não ter o stress de ter de esconder os meus rituais.

P.S. Imagem tirada da net pode ter direitos de autor



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