será?

Já comecei e apaguei este texto imensas vezes. Quero escrevê-lo porque preciso de o fazer, de verbalizar o que me vai na alma. Mas não é fácil fazê-lo.
Hoje, enquanto me encostava ao vidro do comboio e fechava os olhos, admitia para mim mesma o quanto preciso de colo. Há pouco, enquanto me stressava com uma situação no trabalho, desabafava comigo mesma o quanto preciso de colo.
Um dia destes pensei que estaria disposta a desabar, se alguém me amparasse. Queria chorar tudo, ralhar tudo, libertar tudo e, depois, adormecer aconchegada nuns braços feitos de amor.
Já fui uma menina sonhadora, como aquela versão de dois anos que está retratada no fundo do telemóvel ou a versão adolescente exposta no screensaver. Já fui a menina desejosa de construir uma família e ter sete filhos. (Influência da família Von Trapp.)
Não digo que a minha versão adolescente tivesse vergonha da mulher em que me tornei. Mas creio que ela não entenderia. Nem eu entendo. Não entendo como o meu caminho me levou para tão longe desse sonho de infância. Não entendo como o medo me conseguiu alcançar. Não entendo porque me travei tanto, porque me recolhi e não aprendi a sair do casulo.
Aconteceu apenas. Será?
Cada vez o amor me pareceu mais difícil e inacessível. Cada vez a minha mente foi procurando validação para a minha constante sensação de autoinsuficiência.
E, a dada altura, isso transformou-se em consolo: uma existência reduzida à necessidade de sobreviver. E fiquei dormente...
Mas esse sonho volta. Volta pouco a pouco. Timidamente.
"Lembras-te de mim?"
Será que tenho forças para acreditar? Para voltar a acreditar? Em mim? Nelas? Na menina que fui e na mulher que ainda posso ser?
O quanto eu preciso de colo...
O quanto eu preciso de encostar a minha cabeça a um peito seguro e forte e chorar.
O quanto eu preciso de permitir a mim mesma fracassar, errar.
O quanto eu preciso de assumir a minha fragilidade e a minha sensibilidade.
O quanto eu preciso de ser eu.

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